20 de junho de 2014

akazukin

Dá pra gente contar uma história de como se vê e como se representa o mundo ao longo dos tempos só usando diferentes edições de Chapeuzinho Vermelho. Akazukin [2008, Nieves], da autora/ilustradora Yukari Miyagi, é um dos nossos preferidos.


Encontro maravilhoso na UFSCar com os integrantes do Observatório da Educação Escolar Indígena, coordenado pela querida Clarice Cohn. Uma pororoca de ideias sobre letramento, regimes de visualidade, modos de transmissão de conhecimento, tradução, oralidade. É impressionante como a realidade das escolas em aldeias indígenas é diversa. Ao mesmo tempo em que é um direito e uma conquista dos povos que buscam ferramentas para uma participação política efetiva, a escolarização, do modo como é promovida em alguns contextos, reflete as limitações de uma determinada concepção de escola que se tornou dominante mundo afora, em que a aprendizagem se dá pela via da reprodução de conteúdos e informações, em geral transmitidos por textos assertivos e lineares, algo extremamente problemático em culturas orais em que a produção de imagens é fundamental [seja nos recursos narrativos empregados, seja na produção de desenhos corporais ou na tecelagem, e assim por diante]. Foi muito interessante falar dos livros ilustrados [levei uma pilha grande na mala!] e tentar buscar ali caminhos para entender como, mesmo em processos de aprendizagem que visam o letramento, a imagem não deve ser descartada ou considerada uma expressão a ser ultrapassada [como se pertencesse apenas às paredes das cavernas ou aos murais do jardim da infância]. A imagem pode, ao contrário, dialogar com o texto para criar outros modos de leitura do mundo, não calcados exclusivamente na palavra escrita e na transmissão de conteúdos unívocos. De que modo a escola em área indígena [que na verdade é a nossa escola já caduca e contestada] pode [e deve] se deixar transformar por modos outros de transmissão de conhecimento sem perder o empoderamento que ela supostamente promete trazer? Questões todas muito complexas e instigantes. Adorei ouvir Artur Garcia falar sobre a sua experiência como professor indígena entre os Baniwa, do Amazonas, e Luciano Ariabo Kezo, que é Umutina, do Mato Grosso, refletir sobre os perigos da fixidez da palavra escrita enquanto falávamos de tradução. Obrigada a Amanda Marqui, Camila Beltrame, Eduardo Belezini e Ana Elisa Santiago, por terem compartilhado também um pouco de suas pesquisas de campo. E ainda bem que estavam lá, pra pensarmos tudo isso, Rafaela Soldan e Arthur Brandolin! Foram muitas as ideias nesse encontro deliciosamente interessante, que nem esse bolo de laranja aí que a gente traçou na hora do café.

31 de maio de 2014


Alexander Calder brincava de circo e fazia colares para Louisa, sua mulher. Começou aos dez anos, criando joias para as bonecas da irmã com pedaços de arame encontrados na rua.

25 de maio de 2014

o maravilhoso William Kentridge

muito antes do Pantone. um livro com todas as cores.


http://www.thisiscolossal.com/2014/05/color-book/

desenho cego

Livro "Desenho Cego", encadernado à mão, com capa de papel vegetal colorido.

"I once lived in a Boogodobiegodongo and I felt better."

Boogodobiegodongo from peter millard on Vimeo.

livro sensacional da ilustradora Marion Deuchars, que ensina a desenhar com impressões digitais. as imagens são da edição inglesa, mas o livro foi publicado no Brasil com o título "Vamos fazer um monte de arte com os dedos".

vem aí... O Quindim de Iaiá

revoar [v.] 1. tornar a voar, voltar, voando 2. voejar, esvoaçar, pairar; fazer revoada 3. voar alto 4. agitar-se, nascer, acudir; vir à memória 5. estar sobranceiro; elevar-se

pequena grande leitora



estávamos lá na feira no fim de semana passado quando uma moça se aproximou e disse, apontando pro livro a fada inflada, "esse livro... era o meu preferido quando eu era criança". a gente levou um susto, pensou que ela devia ter se enganado, mas não! ela fazia parte de uma turma de escola que fomos visitar logo após o lançamento na pracinha pública, em 2007. sensação de vertigem. quando se tem 9 anos, e depois 16, tudo muda. ela, que se chama Zoe, disse, "eu lia muito esse livro". como o tempo do livro é outro, vagaroso, silencioso. e como foi bonito saber que esse foi o livro que uma criança escolheu ler muito.

do livro "Coisa", da Tatiana Podlubny














Nossa banquinha na feira feira Pão de Forma!
Após um longo inverno, voltamos às postagens aqui no blog. Desde de que lançamos Azulzim, muita coisa aconteceu por aqui. Começamos a conhecer um monte de gente que faz livros e circula por aí com suas banquinhas na Turnê, Pão de Forma e Feira Plana, feiras de publicações independentes visitadas por quem gosta de cheiro de tinta, encadernação artesanal e formatos de todos os tipos, gente que vê nos livros paisagens para arranjos inesperados de imagens e escrita. A gente participou da feira Pão de Forma em abril com livros novos, "Uns Dias", "Coisa" e "Desenho Cego", feitos cuidadosamente à mão.

28 de outubro de 2012



















Por aqui estamos muito felizes com o nascimento de Anotações Noturnasda Tati. O livro foi vencedor do concurso 10x15 - livro em pequeno formato, realizado pela Publicações Iara, de Sampa. O lançamento aconteceu na Turnê, uma feira de livros muito bacanas feitos por gente de várias editoras independentes do Brasil. Tem mais sobre o livro aqui. (As fotos lindas aí de cima são da Fernanda Grigolin). O livro está à venda na loja da Iara.

21 de julho de 2012

sem palavras
























Às vezes as ideias que gostam da noite nos segredam narrativas que esquecemos pela manhã. A gente costuma chamar essas histórias de sonhos. Vez ou outra sonhamos virando as páginas de um livro-imagem (aquele não tem nenhuma palavra impressa). O Sonho de Vitório, de Veridiana Scapelli, é tão bom que a gente chega a duvidar se foi o porquinho roliço e simpático quem sonhou, ou nós. Parece que Vitório apareceu de repente, como quem não quer nada, fazendo Veridiana sonhá-lo no papel para nós. Veja o relato da autora/ilustradora sobre o processo de criação do livro aqui.

21 de junho de 2012

livro de bolso














Sunrise, um mini-livro da dupla It's Raining Elephants.

nuvem

















Katsumi Komagata começou a fazer livros para crianças quando sua filha Aï nasceu, em 1990. Conheça a delicadeza concisa de Nuvem e de outros trabalhos do designer no site da editora One Stroke.

23 de abril de 2012

a doce ironia de Isol





A menina queria ter os cabelos mais longos e um cavalo para ir à escola. Mas não tinha essas coisas. Ela queria ser forte como uma árvore. Mas não era. Um gênio aparece de repente concedendo-a um desejo. "Só um?" Pronto: "Quero TUDO!". "Tudo não tem", diz o gênio, oferecendo à menina um coelho cinza. Ah se o coelho fosse azul...! Pero no. Cosas que Pasan, de Isol. Para curar ataques intermitentes de insatisfação.

15 de abril de 2012

na varanda

Os desenhos formam pequenas histórias, delicadas em escala, mas não menos brutais por isso. Há muito espaço e silêncio entre as páginas. E é como se os eventos acontecidos na varanda durante um verão fossem colhidos pelo tempo. Lembra o que Bashô dizia sobre o haikai: "é apenas o que está acontecendo aqui e agora". E o que acontece é muito. "O Bonsai parecia o mesmo..." Só parecia. 




25 de março de 2012

amizade incomum




“Fazia tempo que o pato sentia que algo não ia bem”, diz o narrador. Nesse momento conhecemos a morte, no mesmo instante em que o pato repara que ela está acompanhando-o. A morte com seu camisolão quadriculado e sapatilhas pretas. Ela é miúda, quase delicada, a despeito da cabeça de caveira. Tem a medida do pato, como se fosse seu duplo ou sombra, e carrega uma tulipa roxa – algo que nunca é mencionado no texto e que o pato nem sequer percebe ou problematiza. Erlbruch faz o pato reagir à presença da morte com uma sutileza marcante. Ele arregala os olhos, o corpo ereto, e pergunta: “você vai me levar agora?”. A morte diz que está sempre por perto por via das dúvidas.

O pato, por sua vez, demonstra uma gentileza ingênua: “Vamos até o lago?”, pergunta. “Esse era o medo que a morte tinha”, mas o pato a convence. Depois do mergulho, ele se oferece para aquecê-la: “Ninguém jamais havia feito a ela uma proposta parecida”. Na página inteiramente branca, Erlbruch desenha um pedaço de arbusto e o pato, cobrindo o corpo frio da morte com suas asas e pescoço lânguidos. Assim, os dois iniciam um convívio imprevisto, improvável.

Se a morte num primeiro momento assusta o pato, em outro, ela se mostra paciente. Mais do que isso, ela é (quase) seduzida pela vida. A maneira como Erlbruch põe os dois para conversarem, e a animação contida demonstrada pela morte quando ainda existe a possibilidade dela passear um pouco mais, revelam uma relação de estranha familiaridade, um encontro tão inevitável como natural. Quando o pato começa a sucumbir, aparece um corvo solitário no centro da página. O pássaro voa sem a companhia das palavras na página. Grita de bico aberto, em silêncio estridente. O pato começa a fraquejar. Aos poucos, a relação entre ele e a morte se torna contemplativa. “Nas semanas seguintes, eles foram cada vez menos ao lago. Ficavam a maior parte do tempo sentados na grama, e falavam pouco”.

“Estou com frio – disse o pato uma noite – Você não quer me esquentar um pouco?” A imagem que acompanha essa pergunta é a do pato segurando as duas mãos da morte. Estão cara a cara, próximos como em nenhuma outra página do livro. Sentimos uma pontada. Sabemos o que vai acontecer. Mesmo assim viramos a página, pois temos confiança nessa morte, nem invasiva, nem truculenta, essa morte sub-reptícia, que é afinal um fato da vida, nos transmite uma estranha coragem. E assim, na próxima página, em que pela primeira vez aparece a cor azul, vemos a morte sentada ao lado do pato, observando sua figura quieta e serena com uma expressão de (quase) tristeza. “Alguma coisa tinha acontecido”, escreve o narrador.

Uma neve fina e delicada – pontos minúsculos na página azul – cai sobre os dois. É chegado o inverno, o luto, o recolhimento. A morte então alisa as penas no corpo do pato. Não vemos o seu gesto porque Erlbruch prefere apenas dizê-lo: “A morte alisou algumas penas que tinham se arrepiado um pouquinho”. Imaginamos a morte deixando seu rastro no corpo do pato, feito uma marca invisível. E então, como se fizesse parte de uma solenidade, a morte caminha com o pato nos braços até o rio, o pato cujo pescoço outrora quente e aconchegante, pende, sem vida. A morte molha os pés, embora não goste de se molhar (como Erlbruch nos mostrou em uma das primeiras páginas do livro), põe o pato na água, e a tulipa em cima do corpo, dando-lhe um “leve empurrãozinho”. À beira do rio imenso, ela observa o pato aos poucos desaparecer. “Por pouco a morte não ficou triste. Mas assim era a vida”. 

Clique aqui para ler uma entrevista com Wolf Erlbruch.

8 de janeiro de 2012

quando a mãe vira um balão...

















Em "El Globo", de Isol, escritora/ilustradora argentina, uma menina de repente vê seu desejo realizado: a mãe brigona e escandalosa se transforma em um balão vermelho. A menina encara a satisfação e o estranhamento provocado por essa súbita mutação. O balão instaura o silêncio, mas é também vermelho gritante. Isol consegue traduzir sentimentos complexos, tais como a raiva, sem nomeá-los explicitamente. Assim deixa espaço para o leitor se relacionar com a narrativa como bem quiser, ou precisar. (editora Fondo de Cultura Econômica).

24 de dezembro de 2011

feliz 2012!

Picasso por Cartier-Bresson

21 de dezembro de 2011

o que é uma criança?


"As crianças choram porque uma pedrinha caiu na água, porque o xampu faz arder os olhos, porque estão com sono, porque está escuro. Choram alto, para todo mundo ouvir. Para se consolar, elas só precisam de um olhar carinhoso. E de uma luzinha ao lado da cama."























"As crianças têm coisas pequenas como elas mesmas: uma cama pequena, pequenos livros coloridos, um guarda-chuva pequeno, uma cadeira pequena. Mas elas vivem num mundo muito grande; tão grande, que as cidades não existem, os ônibus se erguem no espaço e as escadas não têm fim."

"O que é uma criança?", de Beatrice Alemagna (Martins Fontes), é um livro feito de retratos, um grande livro em mais de um sentido. É bom de segurar entre as mãos e de ler com aquela parte em nós que não mudou, embora a Beatrice diga que "todas crianças são pessoas pequenas que um dia vão mudar".

19 de dezembro de 2011

nossos primos


A história começa assim: "Na primeira página há um grande vazio, sozinho" (o vazio é o maior personagem na capa do livro acima). "Todos estão atrasados. O céu está no chuveiro e a terra está arrumando os cabelos, e a água, que está nas nuvens e no chuveiro ao mesmo tempo, também tem que esperar. E o vazio bate o pezinho, impaciente. Humph!" Bob & Co. (ou Bob & Cie no original), de Delphine Durand, é um mito cosmogônico adorável e cômico em que os personagens (inclusive deus!) disputam a página em branco, discutindo a ordem dos fatos na criação do mundo e da própria narrativa do livro. Afinal, ninguém sabe como a história começa. "Ok, diz a terra. Eu tenho algumas reclamações! A água está tomando todo o espaço! Isso não tem nada a ver comigo, diz a história; eu só sou responsável pelas ideias." Bom demais!